"O ANATOMISTA" (Federico Andahazi)
Transformação é a palavra de ordem, foi uma época caracterizada pela descoberta e marcou o período de transição entre idade Média e idade Moderna - O Renascimento da arte, filosofia e ciência.
É neste cenário do século XVI que Federico Andahasi nos leva para conhecer Mateo Colombo, o herói que descobriu sua... nossa doce "América". Não a mesma América de seu homônimo, mas aquela que nomeou como "Amor Venéris", equivalente anatômico do "Kleitóris".
Com uma linguagem "quase" rebuscada, porém ágil e fluida, tem-se a impressão de estar lendo um livro antigo. Contrastando um vocabulário, ora refinado, ora vulgar, conseguiu deixar o texto formal, porém leve.
É possível se perder na narrativa, perguntando-se onde termina os fatos reais e onde começa a ficção; houve momentos em que me questionei se realmente estava lendo um romance fictício ou um relato histórico.
O protagonista Mateo Realdo Colombo (1516-1559) foi um professor de anatomia e cirurgião na Universidade de Pádua, sua obra foi publicada sob o nome de De re anatomica e o autor romanceou seu descobrimento em "O Anatomista".
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Mona Sofia é a prostituta mais cara e bela de Veneza, educada e preparada para o oficio na “Scuola di Puttanne”, era o próprio pecado da luxuria. Foi por esta mulher que Mateo se apaixonou e suplicou seu amor, pedia-lhe que fugissem juntos para onde ela desejasse, mas tudo que Mona Sofia tinha a lhe dizer era : O teu tempo acabou.
Não correspondido, sua frustração o leva a buscar uma forma de controlar o amor e a vontade feminina.
Mergulha à procura de receitas e poções afrodisíacas, mas não obteve sucesso. Então, quando menos esperava, foi chamado para visitar Inês de Torremolinos, uma valorosa viúva atormentada por uma enfermidade.
Inês sentia-se à beira da morte... insônia, palpitações, angustia e suores frios eram os seus sintomas. Quando a examina, Mateo é surpreendido pela visão de um pequeno órgão inflamado, palpitante e úmido.
Ao tocar e friccionar instintivamente o pequeno órgão, sua paciente é levada ao êxtase...estava descoberto o "Amor Veneris".
Bem... o tratamento durou 10 dias, Inês se restabeleceu por completo!
Porém, ao apresentar sua descoberta ao reitor da universidade, este o acusa à comissão de doutores da igreja por heresia, Mateo é levado aos tribunais da inquisição.
Durante a declaração das testemunhas, a acusação e a defesa, influenciados por conceitos supersticiosos e dogmas religiosos, vislumbramos um pouco dos conceitos subjetivos do corpo humano e como a mulher era subjugada.
O discurso de defesa de Mateo, coloca o homem como um ser quase divino e a mulher a representação do demônio na terra.
Cita Aristóteles e seu conceito de concepção: o semem masculino é a essência, a potencialidade e transmite a virtualidade do futuro ser, o homem enfim dá alma à coisa, enquanto a mulher da a matéria, as carnes, ou seja, somente o corpo. E como a mulher é desprovida de alma, a única maneira de compreender o comportamento feminino é através da anatomia.
Milagrosamente Mateo Colombo se livra de suas acusações, mas não porque convenceu os Doutores da igreja, e sim porque foi chamado pelo Papa Paulo III para ser seu médico pessoal, mas a publicação de De re Anatomica, foi proibida segundo os Indices Librorum Prohibitorum.
Restabelecendo a saúde do Papa e conquistando sua confiança, tenta livrar sua obra da censura imposta pela igreja , não consegue.
Se corrompe, faz uso de meios obscuros para realizar seu desejo e mesmo assim, fracassa.
Inês de Torremolinos, apaixonada e abandonada por Mateo, tem um fim triste e trágico.
Colombo se torna tudo aquilo que sempre condenou, abandonou seus valores e se tornou imoral. Não lhe resta nada, a não ser ir de encontro ao seu verdadeiro amor, Mona Sofia.
E o que recebe em troca?
- O teu tempo acabou!
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O livro é rico em detalhes históricos sobre os tabus religiosos e científicos e das teorias anatômicas e fisiológicas da época, porém o ambiente e a cultura geral da Renascença não são muito explorados. Mas este detalhe não deixa o livro menos interessante, narra com fidelidade o discurso masculino de poder e opressão sobre nós... Mulheres.
Gostei muito, foi uma leitura prazerosa.





























