"A RELIGIÃO" (Tim Willocks)

"A Religião" veio parar em minhas mãos por acaso, paguei uma bagatela, não conhecia o autor e por isso não tinha muitas expectativas.
Não sei como dizer o que senti ao ler este livro, mas vou tentar.

Um épico excepcional !

É um livro com cenas que, para alguns leitores podem ser consideradas chocantes, pois mostra a crueldade da guerra e dos homens, mas que também declara que do sofrimento pode nascer o amor e a amizade. Não é um livro para qualquer leitor...é para quem tem estômago. E foi exatamente por isso que me apaixonei pela história do personagem Mattias Tanhauser.
Hoje, eu os convido a conhecer “A Religião” do autor Tim Willocks.
O título do livro se refere aos cavaleiros de São João Batista, exército de monges e guerreiros da igreja católica, a elite na arte de guerrear, que eram chamados de "A Religião".

Relata de forma crua os acontecimentos do Cerco de Malta, uma disputa territorial e religiosa entre cristãos e muçulmanos na Europa do século XVI.
Mostra o caos da guerra em uma época em que a luta era travada corpo a corpo, a insanidade e crueldade assolavam os soldados sem trégua. No calor da batalha, não há espaço para moral, arrependimentos e súplicas, onde quem vence é o mais frio e preparado.
~~~*~~~
Mattias é aprendiz de ferreiro, profissão de seu pai, e como filho primogênito herdou os segredos desta arte. No ano de 1540 - com 12 anos - Mattias acorda cedo, feliz, pois irá forjar sua primeira adaga.
Trabalha durante algum tempo, mas inesperadamente vê suas duas irmãs e mãe serem brutalmente assassinadas por homens a serviço do exército Otomano. Cego pela brutalidade que presenciou, utiliza sua adaga, recentemente esculpida e com a lâmina ainda em brasa, para matar os agressores de sua mãe.
Abbas Bin Murad, um grande cavaleiro das forças turcas, vendo que Mattias era um matador antes mesmo de se tornar homem, o toma como escravo e lhe dá o nome de "Ibrahim". Assim, Mattias/Ibrahim é criado e educado entre os muçulmanos, tornando-se um membro da fraternidade dos janízaros, força de elite do exército Otomano.

Em 1565, usando agora o sobrenome Tanhauser, Mattias não luta mais sob a bandeira do Império do Grande Turco e se tornou um mercenário, traficante de ópio, armas, pólvora e dono de uma taverna em Messina, chamada Oracle.

Além-mar, na ilha de malta, “A Religião” se prepara para a invasão, o grande conflito entre a cruzada cristã e a jihad muçulmana. A ilha está prestes a ser atacada pela maior armada já despachada pelo Xá Suleiman, a uma proporção de 10 otomanos para 1 cristão.
A reputação de Tanhauser é conhecida e como domina as técnicas e estratégias de luta do inimigo, é do interesse dos cristãos que ele esteja em Malta durante o cerco.
Com astucia os cristãos traçam um plano, usam de uma mulher a procura do filho desaparecido, a condessa Carla La Penautier, para convencê-lo a embarcar no último navio para a ilha.
Carla é uma mulher sofrida, mãe solteira em uma época de intolerância e foi separada de seu filho recém-nascido. Ela faz um acordo com Mattias, se encontrar seu filho vivo, se casará com ele e lhe dará o título de conde.
A condessa tem uma protegida, Amparo, e sente grande estima e amizade pela jovem que possui o perigoso dom da visão e nutre um enorme amor pelos animais e natureza.
Amparo é tímida, introvertida, inocente, mas se agarra à vida ferozmente e se recusa a ser fraca e subjugada.

Mattias concorda com os termos e com seu fiel companheiro e sócio Bors, embarca com as duas mulheres para Malta, na expectativa de fazer fortuna com o comércio de armas e ópio. Tanhauser é um saxão aventureiro e que não resiste a um "rabo de saia"... apaixona-se pelas duas. Com Carla nutre um amor recatado, quase platônico, mas com Amparo vive um romance ardente e libidinoso.
Em plena guerra, Mattias se divide entre se infiltrar no exército muçulmano, aproveitando para comercializar seu ópio, procurar o filho de Carla, lutar e proteger suas amadas.
Ele é desonesto, sujo, rebelde, mas é valente e sua palavra é como rocha, seu carisma conquista a todos.

Em meio aos horrores da guerra Mattias, Bors, Carla e Amparo viverão uma odisseia na busca do menino e acabarão esbarrando em corrupção, cobiça, inveja e ciúmes. Mas conhecerão o amor, a amizade e um companheirismo sem limites.
Passarão por muitas privações, sofrimento e serão assolados sem piedade por tragédias, alguns expiram e outros saem ilesos, porém marcados e mudados para sempre.
~~~*~~~
"Apologia à morte"... Foi o que ouvi de alguns, mas não concordo.
Acho hipocrisia dizer que há maneiras de deixar a guerra mais branda, mostrar o lado bom do ser humano..."colocar panos quentes". A guerra é suja, fétida, purulenta e Tim Willocks não poupa o leitor ao relatar os horrores vistos e cometidos.
A fé sempre foi o maior dos combustíveis do ser humano, atos de extrema crueldade foram e são praticados em seu nome. Foi triste e ao mesmo tempo comovente, ver como o amor a Deus move os homens, até os moribundos se levantam ao chamado de "Cristo e o Batista" (Grito de fé dos cristãos) e também ao clamor dos muçulmanos - "Allahu Akbar" (Deus é o maior).

A narrativa é quase poética...uma poesia "infernal"!
Willocks explora o lado mais sombrio do homem, impõe ao leitor a percepção da cor, do cheiro e da podridão da morte; o rufar dos canhões, a aflição ao recarregar um rifle enquanto o inimigo o massacra. É emocionante e aterrador.

"Ouvimos os leões do Islã rugirem"

Talvez estivesse em um momento frágil e sensível, pois este livro mexeu comigo como nenhum outro. Chorei, ri em muitos momentos, em outros senti nojo e repulsa; revolta e ódio; carinho e ternura...muitos sentimentos bons, mas também muitos ruins e perturbadores.

Faz muito tempo que uma história não me leva há um turbilhão de emoções tão contraditórias. A Religião vai para minha coleção e se tornou um dos meus preferidos, talvez..."O" Preferido.

Se você gosta de Romances históricos fortes...Leia agora!

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