“SANGUE QUENTE” (Isaac Marion)

O que tem de errado comigo? Olho para minha mão e sua carne cinza e pálida, fria e dura, e sonho com ela rosa, quente e flexível, e que pode manejar, construir, acariciar. Sonho que minhas células necrosadas estão saindo de sua letargia, inflando e acendendo como o Natal lá no fundo do meu âmago sombrio. Será que estou inventando tudo isso…? Será um efeito placebo? Uma ilusão otimista? Seja como for, sinto que a linha reta da minha existência está mudando, formando vales e morros como os batimentos cardíacos.
Pag. 59

“Sangue Quente” é o romance de estreia do autor Isaac Marion. O livro apresenta uma nova perspectiva dos gementes, vorazes por carne humana e totalmente mortos, Zumbis. Aqui o leitor terá a oportunidade de adentrar à mente inepta de um morto-vivo, conhecer seus pensamentos e sua visão de mundo. Se você, leitor, está achando impossível abordar as reflexões de um zumbi, eu lhe convido a conhecer esse incrível lançamento.
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Ele está morto, mas isso não é tão ruim. Aprendeu a conviver com isso. Ele não tem mais um nome, o esqueceu como tantas outras coisas de seu passado…de sua outra existência. Tudo que sabe é que, talvez, seu nome começasse com R. Sua memória, pulso e calor dissiparam-se, pois R é um Zumbi, mas os vestígios de um mundo que se foi há muito tempo…permaneceram. 

As cidades estão em ruinas, as pessoas vivas fugiram para dentro de enormes estádios de futebol e lá criaram suas pequenas comunidades. R ”vive” em um aeroporto abandonado…subindo, descendo, indo e voltando - brincado varias vezes por dia - nas escadas e esteiras rolantes.
R é um Zumbi e ele faz o que tem que fazer…grunhe, geme, se arrasta e caça humanos para se alimentar. R não sente prazer ao matar, mas é uma necessidade maior que sua vontade, um impulso que vêm de sua entranhas. Seus dias eram sempre iguais, compostos por movimentos repetitivos e sem sentido. Até que um dia tudo mudou… 

Em uma caçada, R se depara com um grupo e adolescentes. Ele não se importa com suas idades, seus sexos ou suas vidas, R só quer comer e aplacar o intenso vazio que percorre todo seu corpo.
Ao comer o cérebro de um jovem rapaz, R experimenta vividamente as lembranças de Perry. E entre os lampejos de memória, lá está ela…Julie. Ao sair do torpor causado pelas imagens, sem saber como ou porquê, R reconhece Julie e sente uma necessidade primitiva de protegê-la. 

R não entende o que está acontecendo, pois estranhamente Perry não o deixou. Suas lembranças, sonhos e anseios continuam a bombardeá-lo. Tudo está diferente agora, as engrenagens de seu corpo cinza e duro estão mudando. R afronta as leis da natureza e quebra as regras de seu mundo. Ele quer uma nova chance e, ao lado de Julie, passa a cogitar a possibilidade de ter um futuro…seja ele qual for.
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“Sangue Quente” foi uma de minhas melhores leituras do ano. Confesso que iniciei o livro com receio e totalmente convencida de que a história seria inconvincente e totalmente disparatada. Afinal, quem imaginaria conhecer os sentimentos e reflexões existências de um zumbi?
O autor foi genial ao abordar o tema, ele inova, porém sem descaracterizar esses seres, vistos até então, com repugnância. Achei a história sensacional, a trama é surpreendente. 

Isaac Marion nos apresenta R, um zumbi sem memórias de sua vida passada, sem perspectivas, mas consciente de sua condição de morto-vivo. Ele sabe que morreu e está fadado a perambular indefinidamente por um mundo devastado. 
O que mais me emocionou foram as reflexões de R, a visão de si próprio, seus sentimentos com relação aos vivos e como encara sua realidade. Ele satiriza a própria condição, suas limitações e filosofa sobre as mudanças que está sofrendo como um zumbi.
“Ali, naquele banheiro, cercado pelo fedor de mijo e merda, penso se é tarde demais para mim. Será que consigo arrancar uma outra chance dos dentes fechados da boca do céu? Quero um novo passado, novas memórias, um novo primeiro aperto de mão com amor. Quero recomeçar de todos os jeitos possíveis.” Pag. 187
Somos levados por uma mente obscura, cheia de névoas, que vão se dissipando enquanto R se autoavalia e muda seu jeito de ser. Eu adorei estar na mente de R, de conhecê-lo, experimentar seus sonhos e devaneios. Através de R, apreendemos a vida humana sob o olhar da morte.

Julie, a garota por quem ele se apaixona, também é um personagem incrível. Adolescente marcada por tragédia pessoais e familiares, que vive isolada com outros tantos humanos em estádios de futebol. Eles saem do refúgio, e se aventuram nas cidades em ruinas, apenas para procurar artigos necessários para a comunidade. E, é em uma dessas explorações que Julie cai nas mãos de R.

Mesmo sendo uma história mais reflexiva, o ritmo é sensacional. A narrativa é fluida e ágil, o leitor não se cansa de ler e fica profundamente envolvido com a trama. A escrita é tão deliciosa que passei a noite em claro lendo, enquanto não terminei...foi impossível de largá-lo. “Sangue Quente” mexeu comigo, foi uma experiência maravilhosa.

Faço minhas as palavras de Stephenie Meyer – “ Nunca pensei que poderia gostar tão apaixonadamente de um Zumbi”.

Marion, Isaac. Sangue Quente. Leya, 2011. 256 pag.

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